Alberto Caieiro¹

Não pedirei a tolice de pensar
Sempre cabe, no entanto,
A ousadia de amar.
Deus primeiramente.
Fez as coisas pequenas,
Para que pouco
Nelas coubesse.
Deus primeiramente.
Fez as estrelas pequeninas
Na noite imensa.
Para facilmente transbordarem luz.
Deus primeiramente.
Fez rios pequenos,
Derramando suas aguas em outros maiores,
Derramando suas águas em lagos e mares.
O sol irradiando seu calor em lagos e mares,
Faz com que as aguas se derramem

No céu azul e bendito.
Deus primeiramente.
Fez o céu
Sem fundo
Para que não retivesse bençãos
E as derramasse
De maneira imensa e vária
Incluindo o sol e a chuva.
Deus primeramente.
Assim fez tudo:
No campo, a pequena flor
Derrama perfume e cor;
A árvore frondosa
Derrama sombra e fruto;
O pássaro ágil e gracioso
Derrama canto e sementes…

Deus primeiramente.
Fez os corpos macho e fêmea;
O homem derrama o sémen na mulher;
A mulher derrama crianças,
As crianças derramam evolução,
A evolução derrama saber e amor…
Deus primeiramente.
Fez as almas pequenas
Para derramarem facilmente
Pensares, sentires, amores
E também mágoas pegajosas e sombrias,
Esvaindo-se em prantos purificadores,
Lágrimas cristalinas
Jorrando de olhos fitos no céu….

Deus primeiramente.
Em tudo cabe,
Por isso, tudo é santo
Pois tudo é Sua morada.
Deus primeiramente.
Está na galáxia imensa.
Trilhões de humanidades
Assentadas em trilhões de astros
Dançando sincronizados,
Rodando em órbitas precisas…
Deus primeiramente.
Está no fóton minúsculo
Viajando solitário,
À velocidade máxima,
Por distancias imensas,
Há milhões de anos,
Com o objetivo específico
De sensibilizar pequena retina,
Convertendo-se em imagem
Numa fração de segundo…
Deus primeiramente.
Verte no nosso mundo
Verdades, vida, objetivos
Em Jesus, Mestre e Senhor.
A semelhança de caule
Vertendo a seiva nos ramos
Jesus jorra seu pensar,
seu amor, seu destino.
Eu vejo
Agua luminosa e colorida
Luz brilhante e fluida
Sendo lançada em grande jorros
E caindo em filetes e gotas
em destinos, pensares e amores.

Eu vejo
Jesus chafariz
Nutrindo amoroso
a humanidade inteira.
Deus primeiramente.
Quanto a ti
Que derramas teu olhar
Sobre estas palavras
Tão singelas
Quanto a adolescente
Andando pela rua
Para trabalhar na fábrica;
Ou tão simples,
Quanto o velho sertanejo,
Pensativo, enxada ao ombro,
Indo a limpar sua roça,

Eu peço
A Deus primeiramente.
Que novamente criança,
Que novamente amado e amoroso,
Que novamente querida,
Tu possas derramar
Em palavras de luz,
Em gestos de bondade,
Em sorrisos de simpatia,
Em olhares de compreensão,
O bem que existe
No fundo do teu coração.

Edison Oliveira Carneiro
Outubro de 2010.

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¹ Indo a um exame médico de rotina, levei o livro “O eu profundo e outros
eus” de Fernando Pessoa, para suavizar a demora durante o trajeto de
metrô e na sala de espera. Fixei-me especialmente em Alberto Caeiro,
personagem em quem Fernando outra-se, contrastando um doce amor
pela natureza com a dificuldade em aceitar Deus, resvalando por vezes
num anti-espiritualismo grosseiro e agressivo.

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